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Palavras finais

27 de março de 2012

Particularmente, um ciclo de maior “extremização” está para mim, de testes rigorosos e ida às últimas consequências de certos desdobramentos. É um processo necessário (e natural) para ver o que permanece e o que se vai. Daí que tenha utilizado um tom duro (como uma ou duas pessoas notaram em privado) em algumas passagens.

Bem, este blogue estará – a partir de hoje – “congelado”. Ele está fora da busca do Google (pelo Google se acha links para ele em outros sites, mas não “ele”) e pelo que tenho visto nas estatísticas, o acesso tem sido baixíssimo. Isto tem algo de bom. Sério. Com o encerramento, aqui ficará ainda mais desabitado e imaginemos um dia em que um desavisado parar por aqui acidentalmente; me alegra a situação de imaginar sua reação – como alguém que descobre um casebre abandonado.

Meus agradecimentos pela paciência e atenção, como ficou óbvio, não deu para fazer os 30 em menos de 30 dias (como proposto). Mas está feito. Não esquecer que são isto mesmo e nada além: “trinta visões”.

30- Conselhos

27 de março de 2012

§30.1.

Boa parte do escrevi foram conselhos. Alguns claros outros, propositalmente, obscuros. Não são para todos. Nem todos para todos os tipos de pessoa. Alguns são para mim mesmo. Em nenhum momento há brincadeira, em nenhum momento vi-me raso, houve palavra tão certeira, houve casos e houve caso. Houve técnica armeira, houve fruto do acaso. Às vezes fora de mim, às vezes em mim mergulhado, mas sempre aqui nas terras altas, no topo desta diva colina. Verde, pela estrada onde passam vivos e mortos. Só quem nela vive sente-a por osmose.

§30.2.

Que conselhos teria eu ainda? Faz bem a tua parte – fá-la de modo excelente, não tenta fazer o que não te cabe. Isto pode ser traduzido, em relação a este projeto (dos 30 dias), assim: “não escreva teus 30 dias”. Se desejas aparecer, coloca, pois, uma melancia em tua cabeça e divulga a foto pelo Facebook. É ridículo ao camponês (ao rude, iletrado e naturalmente da “classe” produtiva) fingir os modos para passar-se por intelectual, mesmo que o faça “com o coração”. É tosco ver o lixeiro (por natureza) fazer o trabalho do exímio bardo. Não é uma questão de Superioridade ou Pedantismo. É uma questão de Diferença e respeito honesto à ela. À Natureza de cada um. Volta à primeira postagem: é este mesmo teu caminho? Queres que o seja sem o ser?

§30.3.

Há muita sabedoria tradicional acima e na qual devo muito ao que escrevi. Quem ama a Tradição e vê nela fundamento não cuida tanto em soar cafona, radical ou impróprio. Cuida de ressoar os valores eternos refletidos das torres de cristal além das nove ondas. Meu conselho final, para o intelectual é que cuide de sua virtude, para o guerreiro que atualize a sua, para o produtor que a cultive seriamente. Há transcendências e iluminações para cada um. Olha a Tradição: da Índia à Grécia, da Irlanda à Germânia. Lá estão as virtudes de cada um. Vivemos uma época, por certo, diferente e que exige de nós soluções para desafios realmente novos. Os deuses despertam, os ciclos se findam. O Caos, a Ordem, o Fogo e a Água. Nossa insignificância ante o universo e valor ante os mortais.

Antes que alguém me pergunte: para o pária não tenho conselho.

29- Futuro

27 de março de 2012

§29.1.

Futuro é um pensamento comum. Espiralar, pois. Para nossa mente, às vezes é difícil concebê-lo assim: certo Agostinho de Hipona, cristão, moldou-nos a visão retilínea do tempo do gráfico vetorial da física das escolas. Como o tempo não seria uma linha reta? Sendo curvo, pois! É difícil voltar a pensar assim. É preciso viver em ciclos. Acostumar-se a preparar a terra, plantar e colher. As grandes cidades de asfalto cinzento e muros concretados nos privam de detalhes importantes que o zumbido do tráfego, o cheiro da rua e a fumaça da combustão moderna obliteram. O que se ouve na buzina histérica do apressado? O que se vê na multidão anônima caminhante? O que se cheira na fumaça escura do caminhão? O futuro…? Linhas retas, retas avenidas, progresso infinito, estradas compridas, retas, lineares, paralelas, nas paredes, nas fachadas, nas janelas, retas, retas e retas. É isto, pois?

§29.2.

O vidente astuto previu o que há de vir. Em sua visão soube, testemunhou a presença. Cantou em rima perfeita, palavras obscuras, da torta e direita, das moles e duras. Mas o que há de vir para nós, os celtistas de hoje sob o Austro celeste? União ou discórdia? Ou os dois juntamente? crescimento ou definha? Ou ambos conjuntamente? Conquista ou derrota? Em casos, certamente. O que nos espera na próxima curva do tempo do presente? Eis o segredo da semeadura conquistado após a Batalha da Planície do Pilar. Agora, sabes quem o guarda.

§29.3.

O Ígne da Tradição precisa ser alimentado dirá o reto costume. Proclama o vetusto dedmas a melodiosa Grande Canção. No rio que flui e onde descansamos satisfeitos ao ouvir o sonoro murmúrio, perene e divo som. Além das batalhas orgulhosas, além do aço e do sangue, mesmo que guiados sob os três mastros (da verdade, do além e do galo ao amanhecer)  do estandarte certeiro. Além do que ainda não é. No que é sempre. Lá na clareira mais erma, no monte mais alto, na planície mais verde. Lá na Ilha além do Vergivios. Em valor e excelência.

28- Caminho

27 de março de 2012

§28.1.

O caminho que caminhas, de curvas curtas ou retas linhas, onde cresces e definhas, impera do passo dado. Eis que na trivia tremes. Eis que o céu enegrece. Eis que o caminho some. Some? Come-o cegueira enevoada. Perde-se o que não tem a vista acostumada às alturas, à olhar de cima, a caminhar pela névoa. Caminhante: vives no cimo do outeiro?

§28.2.

Só – nos dizem os Ocultistas: “ah, pega teu cajado, teu manto e tua bolsa. Eis a longa jornada, só. Eremita, sai da Caverna em peregrinação!”. Longe ecoa a voz do solitário pelo bosque dos druidas antigos – trancafiado na prisão verde e escura de Myrddin. Sobre a sombra do sobreiro carvalhado. Cá em nossas paragens, ecoa pelas pedras áridas, pelos agrestes lajedos e ríspidos respiros dos orgulhosos espinhos. Só. Ecos, pedras, sendas antigas, rastros importantes para o caçador experto e vidente místico. Mas aqui brado ao caminhante: o caminho é comunitário. Sem o último não há o primeiro. Eis um ponto importante que se não compreendido desvia o desavisado.

§28.3.

Lá, onde o teu olho mira. Lá onde desejas chegar em teus passos. Lá onde o caminho conduz, está a miragem que reflete o imóvel – ao norte – na verdade, ao centro; cada passo dado, é um passo avançado – para onde? Pois, como certa feita disse certo grego “o caminho para cima ou para baixo é um e o mesmo”. O sábio, o guerreiro, o produtor e o pária – consegues ver? Precisas ir mais alto? Saiba que alguns, por mais alto que cheguem não conseguem ver: estão cegos. Não basta a tentação do Existencialista, não basta a nadificação do Profeta Niilista, não basta o ódio do Deserto. Caminhante, mantém o passo, pois – te conto um segredo: estamos numa marcha, olha para cima e vê os pássaros dos deuses, eles estão nos apontando a direção da dança do aço, do murmúrio do campo de batalha e domínio do coração.

27- Um Dia Druídico

16 de março de 2012

§27.1

O que um dia druídico teria de diferente de um dia de uma ser humano saudável qualquer? Afinal, viver uma vida autêntica, sem ser escravo, pária ou parasita não é privilégio do Celtista. Antes quem dera, como já disse, se tais malezas nãos nos afligissem. Não adianta ter um “bloguinho”, nem posar de comprometido/a em comentários de Facebook. Não se esconde um graveto no sapato, uma sovela num saco ou uma meretriz numa multidão. Mesmo que estejamos cegos, se identifica a podridão do fruto pelo seu odor. Por isso, se possível, no Verão, levanta com o Sol, ora à Aurora e vai-te ao campo laborar, mas não sem antes rogar aos deuses para que te inspirem disposição. No inverno, não cuida em dormir demais, como não cuida em dormir de menos – aproveita o repouso matinal, quando a serração e o ar gélido tornam a companhia do cônjuge e os lençóis mais divinos e deleitantes. Se necessário, toma os presságios do dia e prepara-te também para o não visto. Acostuma-te ao tempo lá fora, ao sol, vento, névoa e chuvarada e reconhece cada deus. Tenha uma refeição principal, onde possas em sossego agradecer aos deuses e honrar teus ancestrais em reconhecimento sereno, de inverno a verão.

§27.2

Muitas serão as situações, onde o dia será insuficiente, a noite breve, o crepúsculo longo e o amanhecer fugidio, o estudo fatigoso, o labor inevitável, a paz pouco preferível e a sabedoria ilusória. Mas tende sempre retidão e zelo pelo divino não por vantagem mesquinha, pois não és o centro das coisas que existem, nem o filho preferido dos deuses, muito menos o deus que transcende todas as fronteiras, mas por disciplina. Como a gota da gruta, o rastro do viajante ou o salmão na correnteza. Faz tua parte.

§27.3

Sê gentil com a companheira, ama teus filhos de coração aberto. Na nova noite, medita, agradece e melhora-te, se ainda trabalhares pela noite, ora mais uma vez aos deuses do teu ofício. Descansa mansamente e de mente limpa, no calor da lareira de casa, no aconchego do lar sagrado, sob o signo do casal supremo, a proteção dos idos da estirpe e da aliança com os que rodeiam tua casa. Cada estação têm seu tempo, sua música, sua veste, e não sê tolo: reconhece o que deve ser feito no agora, pois, três coisas não têm oposição: Natureza, necessidade e morte.

26- Distrações

16 de março de 2012

 §26.1.

Ávido, ávido perguntara: afinal, qual a medida das distrações dos homens? Não é difícil. Prezar pela diversão em demasia, é ser dela escravo. Embriagar-se constantemente, é não ter moral alguma. Cuidar demasiado da vaidade e sexo, é ser fraco ante a privação. Que época fácil é essa para que nossas distrações sejam utilizadas contra nós. Para tornarem-se fugas viciosas, agentes subversivos, trampolins para decadência. Basta olhar ao redor. Covardia diante da peleja da existência contamina a juventude. A distração deixa de ser tal estado de exceção e passa a ser o de regra; e aí já não distrai, destrói.

§26.2.

Não beneficia teu herdeiro, a prosperidade avarenta, o louvor dos companheiros da taberna ou a festa de diversão. Assim como trará a ti problema, se tiveres uma destas coisas como diversão: caça, guerra e flertar com gente mais nova. Lembra-te do que se obtém indo sempre à taberna: diversão que empobrece, bom humor que prejudica e alegria que entristece. Em épocas como esta, é fácil ter distrações. Temos indústrias e mais indústrias para isto, cartazes coloridos, telas brilhantes e suaves, sons engraçados e chamativos. E qual o mal com a fumaça jamaicana descolada malignamente (ou como dizem “injustamente”) proibida? Qual o mal com a veneração do decadente drogado, incapaz de empunhar uma espada e ser uma inimigo valoroso? Qual o mal com a distração que nos escraviza ante uma tela brilhante de virtualidade? Como guiar-se diante de um miríade de opções convidativas? Não é mal pedir ao celtista que seja coerente.

§26.3.

Diversões e distrações intelectuais, diversões e distrações corporais/atléticas, diversões e distrações produtivas. Um produtor pode distrair-se em algo diferente de sua atividade, assim como o guerreiro e o intelectual. Jogos, hobbies, leituras, música, etc. E podemos vê-las como distrações naturais e artificiais. Além de ser útil identificar as que são prejudiciais (a si e a outros). A terça parte que guia, além, terceira via, aponta o equilíbrio para cada um. Nestes dias, reclamo em prol de distrações velhas e naturais, como cuidar de um jardim ou caminhar pelas ruralidades. Mas isto é um apontamento tendencioso e me resta pedir que os deuses iluminem o melhor aos melhores.

25- Pisando Leve

14 de março de 2012

§25.1.

Uma longa e séria marcha, um pisado firme e rijo, requerem um descanso. Não é uma opção, é uma necessidade. Nossos pés, nosso sapatos, nossa sandália de couro, nosso coturno pesado, nossos pés calejados. Pisemos leve, pois, no momento, e olhemos nossa pegada, é das rasas? Alguns dizem que para alcançarmos certos objetivos importantes com menor estresse e tensão (que podem pô-los abaixo antes), precisamos levá-los menos à sério. Outros dizem que não devíamos levar nada à sério. Outros sempre levam à sério, e não nos dizem nada. Pisam fundo na areia da praia, por mais que o mar apague suas pegadas.

§25.2.

O respeito aos limites, a sacralidade das fronteiras, nos conduz – cedo ou tarde – ao pisar leve em dados casos, situações ou relações. As pedras, os riscos, os vaus, ariscos, maus, sumiços… cansamos. E um cajado nos apoia, e descansa nossos pés, torna mais leve nossos passos. Como o dia, sucede a noite. Como as ondas sucedem calmas ou bravias em nossa vista. No bosque de folhas secas, o chão nos denuncia, rompe o divo silêncio nossa presença em essência. Diante da clareira antiga, eis nossa insignificância, onde nossos passos apressados, se elevam em leves freios.

§25.3.

Pedra erguida, em riste imemorial, pesada lição serena de saber animo-material; observas as eras dos homens como folhas de um vendaval, suas lutas, suas guerras, tanta palavra e arsenal, no curso que leva curvo, seja límpido ou turvo, para o fim de todo mortal. Ó pedra sábia, avisa-nos o momento, cessa nosso intento – que por nós, a guerra suprime, nos alegra, nos deprime e com ela vamos além, juntarmo-nos aos divinos, numa guerra onde ninguém, sem seus sinais corvinos, debandará em retirada. Lembra-nos de nossa transitoriedade, mas não ilude-nos sobre tuas marcas: estão aí lembrando, os feitos dos que já foram. Que não sejamos leves em demasia, aponto de não deixarmos nosso rastro, no lastro da superficialidade; nem pesados sejamos em demasia, entrincheirados em nosso castro, ao ponto de afundarmos na dura imobilidade.

24- Trabalho

13 de março de 2012

§24.1.

Nos dias antigos, éramos definidos, em boa parte, pelo nosso trabalho – nosso ofício. Nossa família e linhagem. O Tradicionalista ainda o vê assim, por mais descabido, desatualizado e “brega” que isto seja. Isto pode nos fornecer erros, como julgar alguém a partir de seu ofício. Mas isto é erro? Todo julgamento injusto o é, daí que é se o for. Truísmo. Fóssil, é o que faz soar tal visão. O ponto que escapa ao desavisado, é que o trabalho também é parte de nossa relação com o divino, de nossa ação consciente no bitus e pode ser alicerce de nossa honra pessoal e excelência no ofício. E quão divinos, são os exemplos de excelência de ofício, suspeito que os deuses mesmos – e alguns têm lá seus ofícios que refletem cá – os admiram.

§24.2.

Três coisas que alegram uma pessoa: o amor de seu cônjuge, a prosperidade de seu trabalho e a sua consciência leve. E quão rejubilante é o banquete após a míngua, a cerveja após a sede. A prosperidade, a riqueza. Três conduzem-nos a ela: a economia de nosso cônjuge, o não-desperdício de nossa família e nosso próprio trabalho. O trabalho, uma arte. Não é demais, mesmo para os celtistas que não se vêem como tradicionalistas mais duros, que nosso ofício esteja alinhado com nossos valores religiosos, com nossa visão de mundo e nosso caráter. Eis a natureza de cada um. O trabalho adequado é necessário para nossa saúde. Nossa saúde no sentido biológico e espiritual. Às vezes, mirando uma vida mais longa e tranquila, a mudança de trabalho, de diversões e de comidas ajuda muito. É uma questão do meio, ternária, prudente.

§24.3.

Pois, digo-te: o trabalho é uma adoração. Uma forma de exercício. Uma forma de magia. Nele transformamos e mudamos as coisas, neles lançamos nossas forças para adequação e ação do que é no processo do que existe em devir. Pelo dom doado, sabiamente dotado. Pelo modelo dos deuses, em consonância com suas músicas; no fremido do carro de boi, no tinido do martelar na bigorna, nas palavras sérias sob a sombra do carvalho. Eis nosso ofício, dom. Aquele que não o sabe, esta perdido dentro de si.

23- Comunidade

13 de março de 2012

§23.1.

A comum unidade da comunidade, apesar de etimologicamente pressuposta, nem sempre se configura. E isto decorre em boa parte da falta de “comunhão”. Comunhão de educação, princípios e direção geral. Uma comunidade pode ser como um bom exército, que é uno em espírito e movimento, forte na disciplina. Mas isto soa oco ao ouvido do celtista de brincadeira. Soa algo “perturbado”, “radical”. Não se entende que uno é vento que balança os galhos. Que uno é raio de sol que penetra pelas folhas. Não entendem sequer que são folhas de galhos (uns mais retos, outros mais retorcidos, outros mais grossos, outros jovens, outros somente brotos) de um carvalho só.

§23.2.

O início, o número reduzido de pessoas, e neste número reduzido ainda a presença de pessoas que não são celtistas mas se acham (estão pelas suas ilusões e vontade de aparecer), dificultam a formação de coesão. Egos cegos. Não adianta só sacudir os parasitas, nem isolar os impostores, é necessário excelência, sem exceção, excelsa. Se a diplomacia com os fracos e débeis for um entrave à excelência, então a diplomacia deve ser cancelada. Do contrário, haverá uma comunidade “fantasma”, díspar, fraca, imersa no ilusório e cega pela turbulência constante. O campo de Bandus decide entre nobres e párias, livres e escravos, está aí para o veles ver. A mendicância desesperada por atenção (vinda de umas pobres almas “injustiçadas”) alcança seu propósito com o veneno da misericórdia e atinge os nobres, e aí vai-se a unidade interna destes, de onde precede a unidade externa mais ampla. É fácil minar, é fácil que o/a imbecil maculado/a – em sua sinceridade desconhecidamente infecta – tente ajudar, na verdade piorando. Roguemos aos deuses para que dispersem a turva névoa de sentimentos enganosos e diplomacia mimável, para que vejamos com clareza de cima da colina.

§23.3.

Como um é o sol que brilha por sobre todo o bosque, como um é a chuva que verte sobre as copas, como um é o solo escuro das raízes, um é os valores da comunidade. E este é que decidem sobre seu crescimento. Não é uniformização. Como diferentes são as árvores, em estatura, casca e folhas, raízes, troncos e flores, frutos, sementes e odores. Mas um, o bosque. Uma a comunidade natural, os celtistas vizinhos, familiares e amigos, leais, valentes, cônscios do dia-a-dia, face-a-face, mão-a-mão. A comunidade virtual (cheia de “líderes” e gente que acha que conhece as outras por uma ou duas conversas no chat do Facebook) é uma ilusão se não assentada nas comunidades locais, vivas e naturais. Doa a quem doer. Uma comunidade natural não está para brincadeira. Um bosque vive, respira e padece de perigos também. O não-respeito é um perigo sério, interna e externamente e deve ser evitado; evita, pois. E ouve e analisa para ti. Três os pilares da comunidade politeísta céltica: organicidade, comunhão e respeito, e os que não os entende nem os almeja, trabalha para sua dissolução e contra a Tradição.

22- Família e Amigos

4 de março de 2012

§22.1.

Eis um ótimo ponto para conhecermos as pessoas de verdade, um lugar do rio onde a água se torna cristalina e a brisa vem aberta. Um tema sobre o qual devemos sempre rogar aos deuses para que nos inspirem à palavra iluminada e a leitura certeira. Aqui temos a oportunidade para diferir entre o que é de fato, e o que parece e o que acredita ser. Proclamo sem medo de soar injusto: eis um ponto para se verificar a real dimensão do celtista e seu caráter. Aqui distingue-se o dissimulado, o perdido, o aproveitador da amizade da comunidade, modernoniilista criptocristão (às avessas ou não). Há os que aproveitando-se do antirradicalismo geral, ocultamente, desvirtuam os valores sob a bandeira de “adaptá-los” aos nossos dias, como se alguém pudesse mudar a posição das estrelas no céu por não agradar-se da visão que formam. Há uma diferença grande entre “adaptar-preservando-o-essencial” e “Modernizar”. Pois, ao Reconstrucionista integral, verdadeiramente comprometido, eis questões muito sérias e que requerem sua atenção e máximo de eficácia. Quem desprezará as Instruções do divo Cormac? E as palavras do Tesamento de Morann? Quão sábias as palavras dos Antigos, uníssonas sobre a família dos filhos dos Árias, quão belas as loas vetustas que mesmo empoeiradas, egrégias, reluzem acima das aspirações hodiernas. Quão diferente de nossa visão estreita, egóica-modernista, despida de valor e contaminada pelos venenos do deserto semita. O que não sente respeito nem verdade nas palavras sábias (e moralistas! Ou não sabeis que os druidas eram Filósofos Moralistas?) da Tradição estará conosco por razões fúteis ou parasitárias, como pedinte no grande mercado, e fará um bem a si afastando-se de nós. Diferenciemos, pois, um livre, um nobre; um abençoado régio de um amaldiçoado pária.

§22.2.

Tu, oiça bem. Sejas tu um religioso ou intelectual, guerreiro, mestres de ofício ou produtor. Honra e beneficia teus pais (quanta razão tem Homero ao dizer: “(…) e aquele que prejudica crianças órfãs ou, por insensatez, ofende o pai ancião, no triste umbral da velhice, agredindo-o com palavras ásperas, desagrada ao próprio Zeus (…)”) no que fizeres, pois nunca o recompensarás plenamente, além de que isto é uma manifestação de excelência. Eis um dever. Não é à toa que nossos antigos apedrejavam os parricidas e matricidas longe de suas vilas e santuários, tais pessoas são odiosas aos deuses mesmos. Maculam o ar, envenenam o solo, corrompem a trilha. Hoje é fácil venerar o alheio, distante e diferente, criar uma proximidade ilusória com que julgamos que conhecemos. Mas não conhecemos, não convivemos de fato. Hoje é fácil desentender-se com os pais, e mais fácil ainda falar asperezas profundas; mas não cede fácil e destoa do que te possibilitou ser, do sangue que manifesta tua essência para a qual, independente de tuas escolhas egoístas, o divino compeliu. É melhor nutrir certo temor, certo tabu no ar denso silencioso. Três razões para guardar silêncio: para não dizer o que não se deve, para não falar como não se deve, e para não falar onde não se deve. Eis a atmosfera de real “blasfêmia”, o medo de desagradar a estirpe (lembra-te de quem descendes), de transgredi-la. Cala-te, evita o erro e a possibilidade de descaminhar da excelência, mesmo que te consideres certo; é óbvio que isto requer maturidade. Não é sábio esperar fazer boa farinha da bolota verde. Desconfia de quem se dá mal com os pais e os critica e agride por muito tempo, mesmo ainda quando estes ainda o oferecem abrigo e favor, agindo pior que um cão que morde o próprio dono que cuida e o alimenta. Não é apenas a permanência na adolescência, é mais sério. Repara nelas: o que têm na vida? O que fazem de nobre e realmente significante? Tem juramentos firmes? Amigos de infância ainda com eles? Um amor duradouro? Por que os melhores, ao conhecerem-no de fato, evitam-no? Por que se encontra só (esta gente é sozinha, por mais que esteja rodeado de comparsas)? Desconfia, pois, há gente amaldiçoada sim, não sê tolo ou enganado pela língua convidativamente atenciosa e amigável do mundo (virtual ou não); neste momento saberás se preferes a sabedoria dos antigos, de verdade, ou se estás preocupado em pareces “bonzinho/descolado/amiguinho”, se preferes o parecer ao ser. Não toma o mal resolvido como exemplo, para solidarizar tuas fraquezas. Sê bravo. Pois três são os pilares: sangue, adoção e respeito incondicional.

§22.3.

Nossa família é a unidade básica de nossa organização social (ou pelo menos de nossa visão disto), molécula do clã, célula da tribo. Não escolhemos nossa família, mas fazemos parte dela, somos artífices de sua honra – e nossa honra pessoal também está relacionada a ela. Não são palavrinhas imbecis, por mais iradamente regadas, que desfarão a cadeia divina. Um problema dela é um problema teu (em alguma medida). Não sê idiota. Nossos amigos reais, de face a face, suor, que cresceram conosco, nos conhecem como nossos pais e irmãos, conhecem nossos avôs e avós, estão conosco, e geralmente são aqueles que permanecerão nossos amigos, nas tempestades turbulentas ou nas calmarias preguiçosas. Lembra-te das três coisas realmente difíceis de se deixar: a terra onde se nasceu e se criou, os amigos de lealdade testada e os frutos obtidos pelo trabalho devotado das próprias mãos. Tal é a ordem do mundo que, às vezes, é mais confiar num amigo que num irmão. Confiança, respeito, compreensão e auxílio. É nas horas turvas que está o amigo límpido, e que precisamos sê-lo também. Quão precioso é um amigo sincero que nos repreende e que põe-se disposto mesmo a nos desagradar pelo que é correto. Como é rejubilante e como causa alegria verdadeira à alma, tê-lo. Hoje é fácil afastarmo-nos dos nossos “velhos” amigos, os de fato, para apenas dedicarmos nossa atenção aos virtuais, mas isto é algo a se ponderar seriamente. Há novas possibilidades de acertos, e inúmeras novas de erro. Lembra-te que os “velhos” estão aqui por perto e poderão te socorrer de imediato, os de longe não. Amigos, conhecidos, companheiros… Pois como dizem, são três os modos de conhecer uma pessoa: pelo seu discurso, sua conduta e seus companheiros.