Pular para o conteúdo

17- Ética

15 15UTC fevereiro 15UTC 2012

§17.1.

“Ética” é um termo incorreto para designar uma moral religiosa. Se o objetivo da ação moral é qualquer coisa além de si própria (o que inclui valores religiosos e expectativas de aprovação da conduta pelas divindades), já não é lá “ética” em sentido estrito. Evita, pois, tal termo ao falar de conduta religiosa. Investiga também, para notar a diferença de visões sobre a conduta dentro das sociedades industriais e laicas, Modernas. Verás que as religiões tradicionais correm sempre o risco de serem afetadas pela conduta Moderna, egoísta e igualitarista, relativista irresponsável (há um relativismo responsável, pois), solo fértil niilista. Parte (a maior, talvez) do Neopaganismo está sob o signo do Modernismo, com uma moral egoísta, egocêntrica, pseudo-libertária, relativista irresponsável, que aprisiona em complexos de (falso) poder e ego, afemina em desvios, deserções e apunhaladas pelas costas, sorrateiras na noite da covardia.

§17.2.

O Celtismo tem uma moral religiosa vigorosa, pilar excelso de valores eternos de sombra universal sobre a égide dos particulares. Compreender sua profundidade é reconhecer o quão centralmente essencial é a moral para a vida religiosa em todas as classes. Como a luz para as plantas, como o céu para as aves. É a motivação para a batalha radical da excelência, no campo de guerra que decide sobre os fracos e fortes, que celebra e execra, enaltece e rebaixa. Abençoa, santifica uns e amaldiçoa outros. Olha ao redor, entre as ruínas de valores, decadência e pseudo-conforto, e matem-te em pé. Honrar os pais, respeitar os idosos, instruir os jovens, defender a inocência. Com verdade, honra, excelência inenvergável, justiça, coragem, hospitalidade, respeito, piedade religiosa… lealdade. Quão fraco são os mortais, sem domínio de si, desleais. Infiéis aos seus juramentos, às palavras dadas, entorpecidos no esquecimento da futilidade hodierna gracejada pelo sorriso decadente de apoio fétido. Amizades desleais, vergonha existencial maldita, no conflito do vir-a-ser. É superior e melhor ter inimigos leais.

§17.3.

“Hipocrisia”, resmunga o inferior ressentido, “machismo-cristão”, guincha a ignorante orgulhosa, “fantasia” diz o niilista oco. Nossa resposta é a espada afiada, o escudo duro e o espírito preparado. Nobre luzente, guerreador sadio, acima da miséria vaidosa de palavras apodrecidas. Camponês ou artífice, guerreiro ou intelectual. Pois três são os esforços admiráveis e dignos de louvor para qualquer pessoa: lavrar suas terras, aumentar seu conhecimento e crescer em excelência. Assente nos três pilares: da moderação para o todo, da fidelidade aos juramentos e da aceitação das responsabilidades. Este último aspecto nos é mais difícil pela mania imposta de que escolhemos tudo. Mas sabei, que de uma conduta moral reta, tem-se bom renome, instrução verdadeira e progresso nos empreendimentos, além de que a amizade divina. Mas de três modos perde-se facilmente a excelência: sendo servo de suas paixões, não aprendendo com o exemplo alheio e sendo indulgente no excesso.

16- Poesia

15 15UTC fevereiro 15UTC 2012

§16.1.

Poesia, feitura, feitio, construção, construto inspirado, prática, canção. Os sons são sublimes, cercados sem sinos, serenos, sedentos, sinistros… campesinos. Citadinos também, pois. Eis uma viga mestra do Ancestral. Que se levanta terrena ao domínio imortal. Reta ou curva, espiralar tão clara, ou mesmo tão turva, se encadeiam os sons em mágica corrente, guiadora ponteira da atenta mente, envolta na névoa nova do sol nascente. Quem saberá seus segredos? Quem dominará seus artifícios? Quem construirá o otossílabo perfeito? A medida velha, vetusto heroico ou martelo? Respira o ar antigo, vê na escuridão primeva, ouve a grande canção.

§16.2.

Há tradições poéticas vivas, herdeiras diretas, ininterruptas, dos filhos dos Árias. Tradição, técnica perfeita, metro, rima, variegada, benfeita, emendada nas juntas, pisadas estreitas. Em pés e pés. É fácil olhar com desprezo para a poesia tosca, sem forma nem metro, do que se arvora iludido e enganá-lo, por amizade, sobre sua poesia. Mais fácil ainda é dizer que isto não está para ele. Que se dedique a outra arte. Egos, cegos. No ronco egrégio do monheira, no murmúrio limpo da correnteza sobre as pedras, no ressoar profundo da melodia da lira, vem a visão ao cego, deleita diluindo o ego. Ó aprendiz, procura o mestre treinado, o tesouro escondido para o honesto em suas escolhas, que traz uma vênia, um coração disciplinado sob a sombra da aveleira.

§16.1.

Quando se escuta o vento sobre os montes, trazendo mensagens de terras distantes em canção de sopro e uivo, imbarrável marcha invisível, que aguça os ouvidos, sente-se os ecos. Não serão sentidos de fronte ao PC. Ou o segredo que inflama a mente do poeta em gênio aguçado, dotado e certeiro. Qualificações que diferenciam, separam e dividem. Alinham os caldeirões por dentro, em reta posição, pelas experiências profundas. Poesia? Três são suas qualificações: dote de gênio, juízo de experiência e felicidade de mente.

15- Histórias

8 08UTC fevereiro 08UTC 2012

§15.1.

Histórias, estórias, memórias, invenções. Novas, antigas, sagradas, profanas. Narrações, contos, descrições frias dos acontecimentos – supostamente neutras. Verdade da narrativa, há delas que requerem sem perdão; nisto três coisas podem ajudar:vestígios materiais que falam por sí, testemunhos confiáveis e a concordância de coisas conhecidas. Mas noutras, a Verdade não está na concordância fiel com o passado. Nem de longe. Hoje temos boas ferramentas para o Bardo, hoje temos bom panorama para o Bardo, hoje temos boas oportunidades de aprendizado para o Bardo. Mas hoje nem sempre se tem um bom Bardo.

§15.2.

É comum o Celtismo trazer a si interessados em História. E em histórias, ou estórias. Mas nem sempre se percebe bem o papel destas coisas. Mesmo hoje, com o alegado triunfo presunçoso sobre as velhas supertições e contos de fadas, subestima-se os papeis e importâncias. Vivemos em uma era onde, cada vez mais, Hollywood (na verdade as mídias audio-visuais, em geral) avançam sobre o subconsciente e imaginário; isto permite que as grandes narrativas tradicionais sejam mais acessíveis e espalhadas, por outro lado, tosa a liberdade imaginativa, padronizando as sensações visuais. Vejo que é algo para o bardo de hoje pensar. Tomar um posicionamento, de uso, cautela ou descarte.

§15.3.

Pensemos nas histórias de nossa formação, nas da formação de nossos descendentes. Eis um conselho. Três coisas: conselho, perda, vergonha; quem não tiver a primeira, terá as seguintes.

14- Meditação

7 07UTC fevereiro 07UTC 2012

§14.1.

O pensamento em torno de si pode silenciar os ruídos e trazer a retidão necessária. Quando isto ocorre, pode ser como o cálice dado por Mannanán à Cormac. Como uma visão auspiciosa num presságio certeiro de uma viagem perigosa. Uma vela na escuridão. Ter a mente treinada é importante. O Celtismo hoje, pela corrente mais próxima ou preferência doutrinária, estipula exercícios meditativos, com referenciais míticos diversos, que visam treinar a mente do correligionário, seja para um estado requerido ao exercício litúrgico ou divinatório, ou para concentração e canalização da auis, etc. A modernidade ou coerência histórica, nestes casos, não deve ser mais reputada que a funcionalidade.

§14.2.

Muitas vezes meditações são impostas à nós. Seja no cume enevoado quando o céu cinzento e o ar gelado arrodeia a solidão, ou quando o piado dos pássaros nos silencia na clareira entre árvores antigas, no escuro massante de um gruta escondida ou no horizonte reto além das nove ondas do mar. Os pensamentos nos tomam de assalto, nos evolvem. Coisa antiga. Antes fizeram. Depois, farão. Problemas sempre existiram, mesmo os que julgamos ser apenas nossos. Igualmente as soluções. Eis os pingos espaçados do espaço escuro. Ressoam graves, sendo agudos.

§14.3.

Reflete, para ver as dimensões do poder, as consequências da prosperidade, para aprender com os erros. A distinção entre o que persiste e o que supera é dura, impiedosa. Reflexão é importante, ela que nos livra de fazer mal (lembra-te que deve evitá-lo, como deves também praticar a bravura e honrar os deuses). Ela que nos ajuda a superar atrasos, desfazer-se de fantasmas e de reparar erros. Pois três são as coisas necessárias aos que erram: reconhecer o erro, buscar justiça e oferecer reparação.

13- Inspiração

6 06UTC fevereiro 06UTC 2012

§13.1.

Há quem diga muita coisa. Há quem diga que o Druidismo é a religião da Inspiração. Auis, Aí, Awen. Inspiração? Espiração, inspiro – não espirro – aspiro. Espírito, sopro sobre o curso luminoso da fonte ígnea. Eloquente discurso, inflamado, orgulhoso. Como a candente lâmina na forja, forgênese poetigena medicinal. Hum: o que sabeis disto, mortal decadente?

§13.2.

Já vi um poeta inspirado de verdade, de fato, há um fogo em sua cabeça. Constrói a rima perfeita, poesia mais nobre e fina, em métrica cristalina, em cadência arrebatada, tonante bem cantada, vaticínio precioso, pouquíssimos entre muitos, numa cadeia dourada que prende a audiência em sua voz vistosa. Hipnotiza, deleita, emociona, faz correr a corrente. Sei que poucos dos interessados no Celtismo hoje, isolados em muralhas computadorizadas, já deslumbraram isto, respiraram o mesmo ar, sentiram como o ar que se respira fica diferente. Eu digo: alguns acham que trabalham com a Inspiração, eu digo que do que nos mostram, temos brincadeiras de criança; comparado ao vate da Tradição. Sempre é revigorante desfazer-se de ilusões. Talvez, admito, seja mais fácil manifestá-la nas artes manuais de ofício e na música instrumental, na medicina não faço ideia de como seja. Não basta orações à deusa. Os deuses repartiram aos homens: uns, por mais que se esforcem, não alcançarão a Obra – eis o desígnio sábio e santo do que existe.

§13.3.

Iluminação do artífice, iluminação do guerreiro no campo de batalha, iluminação do poeta no verso dourado. Frenesi forte, irresoluto arrebatar, brilho brioso. Onde o excesso cabe? Três cujo frenesi beneficia a toutā: do artífice em sua obra, do poeta em seu verso e do guerreiro no murmúrio da guerra.

12- Roda do Ano

4 04UTC fevereiro 04UTC 2012

§12.1.

As duas metades circulares da espiralar temporal são bem conhecidas. A metade escura e a clara. Os raios da roda também, o número destes variará para o Celtista em relação a sua opção calêndrica. O nimbífero e o escuro ancestral rodam, o claro e o escuro, do céu e do submundo. Há pouco a se falar aqui e muito a se viver, pois a observância religiosa dos ciclos não se resume aos ritos comunitários nem aos nossos ditames pessoais.

§12.2.

Rege teus ciclos pelos da Biorregião. Acorda, dorme, repousa, agita-te, labora, ora, come o que a estação aponta, prioriza. Escuta a música da estação. A música afina a alma e entona a mente. Veste as cores. Muda os papéis-de-parede do teu computador. A decoração de tua casa, os cômodos, se for o caso e necessário (as vezes a chuva pode forçar isto). Cada dia é diferente, a cada dia a roda ígnea do sol se move; cada noite é diferente, as estrelas correm na sua caçada estelar, a lua olha, as árvores te olham. A cada estação há coisas a se fazer, a se ouvir, a se falar, a se ver. Sempre (o ano todo), intoxica-as. Sempre, descaracteriza-as. Sempre, anula-as. Perceber bem o caminho, facilita a sabedoria da viagem.

 §12.3.

Comida, dieta, pelos ciclos. Gorduras e massas a seu tempo, frutas e muita água a seu tempo, grãos secos e nozes a seu tempo. Mistérios? Os há. Acertos? Sim, os há. Erros? Não faltariam, pois! Mas três coisas se obtêm da adequada observância dos ciclos: uma mente larga, um corpo pronto e harmonia com a ordem divina do mundo.

11- Ritual

3 03UTC fevereiro 03UTC 2012

§11.1.

O rio do rito: sempre diferentemente o mesmo. Correnteza mais forte, correnteza mais fraca, mais ou menos obstáculos, afluentes mais cheios, afluentes mais vazios, seca ou cheia na vazante, eis o domínio do Rotos. A melodia da canção: unificação desunificadamente. Tons variados, tons monótonos, mais ou menos habilidade, cordas agudas, cordas graves, tempo solene ou pulsante da dança, eis o domínio da Cerdā. O ígneo incitador interno: chama aquosamente iluminadora. Combustível mais rápido, combustível mais lento, mais ou menos ventos, chama mais alta, chama mais baixa, clarão forte ou luzir tímido, eis o domínio do Auis. Três dimensões do lītus: rotos, cerdā e auis.

§11.2.

O costume sagrado é seguido assim, sem necessidades persuasivamente eloquentes de argumentos racionais – herança Modernista/Iluminista de tudo explicar e tudo dominar pelo número e cálculo. Para que é feito o rito? Por quê? Por que deve ser feito hoje? A eficiência que os Antigos clamavam não é uma ilusão? Por que deve ser feito assim? Os deuses precisam disto? A ordem do mundo precisa? … Precisamos destas perguntas? Os filósofos arrumam seus argumentos como blocos; justificam as questões, justificam as respostas, justificam a falta de respostas. Mas a chama cintila indiferente, solene, serena: iluminando. Eis o que importa.

§11.3.

Não esperes avelã de uma macieira. O rito, a norma, o costume, os gestos, os cânticos, o fogo, a água, as fumaças sagradas, o som, o cheiro, as cores, sensações, imersas no instante intemporal interno, na experiência compartilhada, que reforça os laços, abraços, passos, percalços. Transformação e mudança, molde e magia. A gratidão profunda, boa mente sincera, na honestidade nua do olhar piedoso, honrado e nobre. Três coisas junto às quais o mal não pode estar: conformidade com o dedmas, conhecimento puro e excelência de caráter.

10- Espíritos da Natureza

3 03UTC fevereiro 03UTC 2012

§10.1.

Certa feita disse um romano: “não há lugar sem um Gênio”. Muitos são os contornos do que há, e muitas as formas e forças. Visíveis, invisíveis, altas e baixas, médias, diminutas. Há quem diga que nossa mente oferece os elementos que constituem as imagens que por ventura vemos dos invisíveis, teríamos , pois, representações. Há quem diga que a percepção dos tais é “objetiva”. Há quem diga que não há “percepção”, pois os tais não existem de fato, apenas como representações folclóricas de forças locais ou como símbolos “vivos”. Em todo caso, para os modos antigos, é importante o reconhecimento. O lugar emanado, a impessoalidade tópica que nos torna só mais um “estrangeiro”, um outro. Aqui também não escolhemos.

§10.2.

Cada povo ao longo do tempo desenvolveu suas maneiras próprias de “enxergar” tais numes e “catalogá-los”. Traçar seus perfis e modos de ação. Folcloristas explicam desdenhosos, crentes da perfeição de seus modelos, a degeneração e diminuição das potências em seres pequenos e/ou deformados. Criam sistemas de correlação destes com os reinos da existência e/ou com elementos formativos do que é. Elementais, lares, espíritos residentes, entidades locais, gênios locais, ansīs… Duendes, gnomos, pucas, trolls, elfos, silfos, ninfas, sátiros, sacis, curupiras, caiporas, etc. Um ou vários, limites, incursões, fusões, confusões. Amigos, neutros, hostis a nós – como espécie ou pessoa. Especificidades culturais, de uma mundivisão, de um modo de pensamento sobre um lugar. De uma forma de Natureza, Espaço. De uma Biorregião (não de todas). Há lugar para experiência pessoal, prática religiosa, superstição exagerada, indiferença ultrajante, zelo demasiado; viva, ponha-te em moção, emoção de respirar o ar puro e frio com o sol fraco sobre os campos. Só então estarão abertas as portas das medidas.

§10.3.

Os nativos do local experimentaram melhor, viveram em maior contato com o mundo natural, por gerações a fio, por fios de gerações. Então, respeita o modo de enxergar deles, mesmo que discordes. Evita importar o inimportável, ser desrespeitoso em tua substituição. Não é brincadeira, não é RPG, não se está brincando. Evita mover os limites, o curso em prol de tua novíssima vaidade, respeita os limites antigos, os espaços. Pois três coisas que se removidas do lugar, maldito é quem o fez: os marcos da fronteira, o curso da água e os sinais da estrada.

9- Ancestrais

2 02UTC fevereiro 02UTC 2012

§9.1.

Nove vezes a onda veio, sob céu nublado do primeiro inverno. Nove vezes o vento sacudiu o teixo, nove vezes os pássaros negros piaram. Os véus, as malhas, os céus, as gralhas, os fachos, os cimos, os cachos, arrimos, rodas raiadas, cabeças pintadas, cabeças de abóbora, crânios… no profundo escuro o ancestral se compraz, em banquetes divinos, assento de paz, reluz os metais, o cão divino, escuro lupino, pedra em riste, retornam, retornam os ecos, imperação do averno, às mentes mortais. Ancestrais! Despertai em minha visão de sangue e aço, de haste e ponta, de base e escudo! Revivei o mais nobre e real de meu sangue, orgulho excelso, acesso de poucos. Visão vetusta e sagrada, egrégios monumentos, essências de nosso ser.

§9.2.

Aquele que menospreza os Ancestrais é um tolo maldito. Sua companhia deve ser evitada, seu riso é funesto, sua ação maculada. O que os odeia é um doente. Sem amor a própria estirpe, sem amor ao próprio sangue, sem noção do que o sustenta. Segue sem sinais, cego nas flutuações das modernas agitações, da virtualidade hodierna. Mentecapto, ignora que sua presença instantânea, seu ser-aqui, volta ininterruptamente na cadeia rubra sagrada, independente de suas vaidades, suas escolhas, modo de vida. Cego – não vê sua pequenez, nem sua pertença. Antes do homem, ergue-se a sombra de seus Ancestrais. Condição absoluta de sua existência. Ascendência de suas virtudes, ofício e natureza. São as lutas lutadas por eles que permitiram o agora, suas mortes, seus erros, acertos, erigidos impessoais nas pedras, sussurrados suaves nos ventos, confessados calmos nos litorais.

§9.3.

Não escolhemos – mania moderna vã de achar que se controla tudo e pode-se decidir sobre tudo. Não há escolha. Há herança. Sangue. Identidade. Acostuma-te ou fuja para fantasias fúteis. Aceita-te ou adoenta-te, aliena-te. Conheça, procura, só assim compensar-te-ás dos fragmentos que te desagradam. O pacote é completo. Reflita sobre esta doença de ódio para com o que se herdou, para o realidade, para com o cheiro da própria casa. Necessidade de fingir ser o que não é, de amar o que te ignora num desvio distante para não encarar a si. Qual o problema? Ele não está em ti? Está?! Reflita, pois. Ancestrais de sangue valorosos, avós de nossos avós, de épocas diversas, costumes e deuses; Ancestrais de nossa cultura religiosa e valores, maiores do costume sagrado, dedmas. Ancestrais desta terra, nativos. Muitos são os nossos ancestrais, muitas suas inclinações, conflitos, afetos e desafetos conosco ou com nossos costumes. Amante do novo ou do velho, ou de ambos. Mas todos estão lá, elo a elo, na impessoal brotação do vir-a-ser que dissolve o presente pontudo em um instante impontual. Pois três coisas são obtidas pelos que ouvem os antigos: iluminação, sabedoria e clareza.

8- Divindades e Crença

31 31UTC janeiro 31UTC 2012

§8.1.

Deuses, deusas, divino. O que pode ser entendido pela mente humana? O que pode romper o véu fenomênico? Quão final e perfeito é o saber humano? Na escura gruta, de silêncio sufocante, massante escuridão o caminho curvo, corvo a gralhar. Nem sempre é fácil retornar. Os três grandes deuses primevos, descendentes do um colossal, os demais deuses poderosos, e deuses menos poderosos, locais e tópicos, semideuses, numes, gênios… no mar, na terra, no céu. Epistemicamente não há superioridade alguma em qualquer crença no divino, por mais que estejamos tentados a reconhecer certa justificabilidade/naturalidade na crença politeísta. Os assovios dos ventos despovoados do deserto somítico não nos assusta. Edifício teológico soberbo, erguido sob areia ligeira, sob sonhos perturbados, cercados por séculos por uma “certeza” incerta. Mas sempre um assunto difícil que depende de muitas coisas. Não só dos argumentos em si. De abraçar o projeto racional Modernista (que não era o mesmo dos Gregos antigos). De sondar os impactos pragmáticos. Mesmo para nossos antigos, mesmo para os Gregos e Romanos. Vá lá, leia-os. Os Filósofos “pagãos”.

§8.2.

Os filósofos e cientistas convencem. O cientista diz nos provar (niilisticamente). A moda, a mídia, os galardões. Quão fácil, quão comum é a vontade de nada. Quão racional e justo! Quão intelectual! Quão fácil é dizer (baseado em rigorosamente nada de epistemologicamente ou logicamente sólido) que a crença monoteística é “mais provável”. Tolice. Os sábios sabem-na. Quão difícil é o labirinto que os ateístas põe. A “razão”, põe? Não seja ingênuo, ela não serve a si mesma sempre. Há saídas difíceis encobertas por muros de descrédito. Fideísmo é uma saída simples, econômica. É uma espécie de ato revolucionário bradar aos velhos deuses. É estar em profundo desacordo com o mundo Moderno e com o Deserto. Pelo menos em aspectos sérios, mesmo que não se saiba. Um retorno?  Um desafeto? Digo: uma força pulsante irrefreável, extrema, valorosa. Inimigos já estão a desviá-la, mesmo os que se dizem fazer parte dela – mas que com suas mesquinhices a corrompem. A Fortuna, eis que acompanha estes, para nossa sorte.

§8.3.

Panteísmo, Polipanteísmo, Henoteísmo forte (o “monoteísmo” pagão), fraco (o henoteísmo de fato), politeísmo forte, fraco, naturalista, psicologista, interpretacionista, etc. Até onde vamos por nossas crenças? Até onde vamos por nossos deuses? Eis a questão importante. Há um Um cósmico sobre todos? Digo: o que isto altera na vida dos mortais? Quão tal Um está ocupado conosco no nosso cotidiano diminuto? Vede nossos irmãos indo-europeus, os hindus. O Um cósmico, supra-celeste? Cuida de lavrar tuas terras, nisto os celestes e terrestres podem te ajudar. O cósmico-supra-celeste está mais ocupado e distante, mesmo que algo dele reflita ainda no escuro, não sejas egoísta: quem és tu no multiverso do que existe? Quem somos nós? Apenas não te desvias, três coisas das quais nunca se desviar: seus juramentos, seus deuses e o que é.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.